Título : Os dividendos de uma política séria
Data Publicação: 01/05/2003
Fonte : Clipping Ministério do Planejamento
Fazia muito tempo que a imprensa não publicava, no mesmo dia, tantas notícias boas sobre a economia brasileira. Inflação em queda, risco país em baixa, melhora da classificação do Brasil, redução do preço da gasolina, real valorizado e captação internacional de US$ 1 bilhão pelo governo alegraram as primeiras páginas. Além disso, houve a descoberta, em São Paulo, da maior jazida de gás do País e o fechamento do índice Bovespa no maior nível de 11 meses. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em almoço com parlamentares petistas, celebrou as novidades e chamou de "histórica" a decisão de cortar os preços dos combustíveis. A melhora do cenário internacional, com o fim da guerra no Iraque e a redução das cotações do petróleo, contribuiu para esses resultados. Mas a causa mais importante, sem a qual as mudanças no exterior poderiam não ter reflexos no País, foi mesmo a recuperação da...
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Fazia muito tempo que a imprensa não publicava, no mesmo dia, tantas notícias boas sobre a economia brasileira. Inflação em queda, risco país em baixa, melhora da classificação do Brasil, redução do preço da gasolina, real valorizado e captação internacional de US$ 1 bilhão pelo governo alegraram as primeiras páginas. Além disso, houve a descoberta, em São Paulo, da maior jazida de gás do País e o fechamento do índice Bovespa no maior nível de 11 meses. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em almoço com parlamentares petistas, celebrou as novidades e chamou de "histórica" a decisão de cortar os preços dos combustíveis. A melhora do cenário internacional, com o fim da guerra no Iraque e a redução das cotações do petróleo, contribuiu para esses resultados. Mas a causa mais importante, sem a qual as mudanças no exterior poderiam não ter reflexos no País, foi mesmo a recuperação da confiança no governo brasileiro. Sem isso, não teria sido possível o retorno do governo ao mercado financeiro externo, para lançar papéis no valor de US$ 1 bilhão, um ano depois da última emissão. O Banco Central, que entregou a operação a dois bancos intermediários, poderia ter vendido até US$ 6 bilhões em títulos, porque havia demanda suficiente. Com rapidez que parece estar surpreendendo o próprio governo, a administração do presidente Lula começa a colher os resultados de uma política sensata. As grandes metas do governo são outras - diminuição da pobreza, aumento do emprego e retomada do crescimento, por exemplo. Sem deixá-las de lado, o presidente sabe, no entanto, que o caminho para os objetivos mais ambiciosos passa pela construção da credibilidade financeira e pela consolidação da estabilidade. Não há outra explicação para as duras decisões tomadas no início de seu mandato, como dois aumentos da taxa de juros, elevação da meta fiscal e manutenção do acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), instituição abominada por muitos correligionários do presidente. Com o superávit primário acumulado até março, R$ 22,83 bilhões, o governo cumpriu com folga de R$ 7,4 bilhões a meta acordada para o período com o FMI. Mas o presidente sabe também, e continua a demonstrá-lo, que o crescimento econômico dependerá, a médio e a longo prazos, da continuação do programa de reformas. No mesmo dia em que os jornais trouxeram todas aquelas boas notícias, o presidente encaminhou ao Congresso os projetos de duas das mais importantes reformas, a da Previdência do setor público e a do sistema tributário. Para mostrar a importância que atribui a essas inovações, o presidente resolveu converter a entrega dos textos ao Congresso numa cerimônia especial, com sua presença e a de todos os governadores. Os críticos apontarão defeitos nos projetos - sempre seria possível apontá-los -, mas não há como pôr em dúvida o empenho do presidente em cumprir a agenda de reformas. O esforço para entregar as propostas ao Congresso até o fim de abril é mais uma demonstração desse compromisso. Este é o melhor momento, disse há pouco tempo o presidente, para levar à votação projetos tão complexos e polêmicos quanto esses. Os efeitos dessas mudanças mal começam a se refletir nas atividades produtivas. O crescimento industrial continua a ser puxado principalmente pela exportação e pela substituição de importações, pois o mercado interno permanece estagnado. O desemprego ainda alto e a perda de renda dos consumidores limitam as vendas ao mercado nacional. Alguma animação adicional está sendo proporcionada pela boa safra, que aumenta os ganhos no campo e, também, a demanda de insumos agrícolas e de equipamentos e dá algum impulso ao consumo. A redução da inflação deve contribuir para o aumento da renda real das famílias e para dar maior segurança às decisões de negócios. Os juros continuarão altos por algum tempo, até que as autoridades monetárias julguem haver segurança bastante para baratear o crédito. As condições para isso estão sendo criadas, graças à política de austeridade sustentada pelo presidente Lula. Uma orientação diferente em pouco tempo se revelaria um embuste político, ainda que pudesse atrair aplausos a curtíssimo prazo.