Título : Sem medo de ser multinacional
Data Publicação: 18/11/2003
Fonte : Clipping Ministério do Planejamento
O presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, a meu ver, acertou em cheio ao dizer, durante seu encontro com o primeiro-ministro espanhol José María Aznar, que "as empresas brasileiras não podem ter medo de virar multinacionais". Esse medo não apenas existe como é generalizado, conforme confirmou o estudo "Promoção de Exportações via Internacionalização das Firmas de Capital Brasileiro", promovido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em dezembro de 2002. O estudo analisou as metas e o histórico de investimentos de um universo formado por 400 empresas nacionais com diferentes perfis de exportação e chegou a um resultado interessante: apenas e tão-somente 20% dessas empresas declararam ter a intenção de investir na comercialização de seus produtos no exterior. Ou seja, 80% das empresas brasileiras não têm capital ou acesso a financiamento para...
Tags :
empresas, produtos, brasileiras, brasil, setor, mercado, muito, brasileiro, nacionais
[ Clique aqui para ver o conteúdo completo ]
O presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, a meu ver, acertou em cheio ao dizer, durante seu encontro com o primeiro-ministro espanhol José María Aznar, que "as empresas brasileiras não podem ter medo de virar multinacionais". Esse medo não apenas existe como é generalizado, conforme confirmou o estudo "Promoção de Exportações via Internacionalização das Firmas de Capital Brasileiro", promovido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em dezembro de 2002. O estudo analisou as metas e o histórico de investimentos de um universo formado por 400 empresas nacionais com diferentes perfis de exportação e chegou a um resultado interessante: apenas e tão-somente 20% dessas empresas declararam ter a intenção de investir na comercialização de seus produtos no exterior. Ou seja, 80% das empresas brasileiras não têm capital ou acesso a financiamento para investir em novos nichos de mercado. No setor de tecnologia da informação (TI), a situação não é diferente. O déficit comercial brasileiro nessa área chega a US$ 1 bilhão anuais, enquanto nossa balança comercial apresenta um balanço positivo de quase US$ 20 bilhões, puxado basicamente pelo setor de agronegócio. Isso reflete muito claramente nosso passado colonial: estamos importando softwares e exportando soja e milho, produtos de valor agregado muito inferior. Essa situação se torna ainda mais estranha quando pensamos que a Índia, país que em muitos setores enfrenta mais dificuldades que o Brasil, é hoje um dos maiores fornecedores mundiais de tecnologia, implantando empresas nos Estados Unidos em pleno Vale do Silício, capacitando uma geração de programadores e técnicos considerados melhores do mundo e gerando, dessa forma, um enorme lucro para suas empresas e para seu país. Afinal, o que impede o Brasil de iniciar um boom semelhante ao da Índia? Know-how, capacidade, criatividade e competitividade? Nesses quesitos, as empresas brasileiras são maduras. De fato, o software brasileiro é muito bom, especialmente nas áreas bancária e financeira. Cinco planos econômicos em poucos anos, com alterações profundas nas regras do setor financeiro e a necessidade de mudanças drásticas, em pouco tempo geraram uma altíssima capacitação para empresas e técnicos do setor. Hoje, instituições financeiras brasileiras realizam transações operando em tempo real, algo que similares norte-americanas ainda não conseguem efetuar. Torna-se claro que o que falta para as empresas nacionais é coragem, união e organização. Foi pensando nesses fatores que um grupo de empresas brasileiras resolveu criar o Núcleo Brasileiro de Exportação de Tecnologia (Next), consórcio que se configura na maior joint venture já realizada pelo setor nacional de TI. Um total de 15 empresas nacionais de serviços e produtos para as áreas financeiras, bancárias, de seguros e de e-commerce resolveram se unir para enfrentar um imenso desafio: atuar no poderoso mercado financeiro norte-americano. O objetivo é criar uma empresa em território norte-americano com management preferencialmente nativo. A empresa não terá nenhuma refe-rência visível ao Brasil, enfatizando antes a competência de seus produtos e depois a sua procedência, mas possuirá capital e patrimônio tecnológico 100% brasileiros. É, sem dúvida, um modelo que tem tudo para dar certo. A idéia é juntar as forças das empresas e reunir massa crítica suficiente para minimizar o risco trazido por iniciativas isoladas. O modelo colaborativo possibilita o aumento do leque de produtos e serviços oferecidos pelas companhias e garante que as expertises das diversas equipes técnicas sejam utilizadas de maneira complementar, tornando o pacote técnico mais atraente para o cliente e aumentando o valor agregado do produto. Esse modelo reconhece que uma das características desse mercado é uma certa dose de preconceito cultural. Nos Estados Unidos, o Brasil é muito conhecido pelo futebol ou pelo samba, mas se torna definitivamente um ponto de interrogação quando o assunto em questão é software. Com esse tipo de união é possível enfrentar as companhias estrangeiras de igual para igual. A estratégia é clara e a visão de longo prazo: ir mostrando pouco a pouco ao mercado americano a inquestionável capacidade dos brasileiros de oferecerem bons produtos por preços competitivos, adaptando-se aos novos ambientes e desafios e utilizando-se de sua inerente criatividade, tão grandemente reconhecida na música, mas até hoje menos conhecida em outro tipo de "partitura", que é o software. Parcerias pioneiras como essas precisam surgir cada vez mais no Brasil. Estamos dando um primeiro e importante passo e mostrando que movimentos como esses são coisas de empresas que têm coragem de investir e humildade de reconhecer que juntas conseguirão enfrentar melhor a escala de seu desafio. kicker: Empresas nacionais se unem para atuar no mercado financeiro norte-americano